sábado, 25 de dezembro de 2021

Pária do amor

PÁRIA DO AMOR

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

De olhar parado e quase agonizante,
o pobre moço andeja embriagado
pelas ruas do Centro deslumbrante
de vida, e de rumor desapiedado.

Ao seu lado, sob a garoa fina,
ela passou bem rente a si, ligeira,
loira, numa figura à cartolina
de boas-festas, rindo prazenteira...

Ele esfregou os olhos estonteado
ante aquela visão de iluminura:
o seu sonho real, concretizado!

E a cidade monstruosa, indiferente,
ficou a rir do seu olhar-ternura,
- na agonia do seu amor nascente...

sábado, 31 de julho de 2021

Despedida

DESPEDIDA

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Avizinha-se a hora da partida...
Penso nos dias bons que se passavam
adoráveis, na alegria incontida,
espontânea, nas horas que entoavam

louvores à amizade verdadeira.
Penso, também, nos dias ensombrados
de sofrimentos vários, na canseira
dos dias de trabalho, nos lembrados

e inesquecíveis dias entretidos,
passados a jogar familiarmente
prélios interessantes, divertidos...

Penso tanto, quisera não pensar...
Como é cruel a vida! Certamente
alegre em ir, mas triste em vos deixar...

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Fim de Safra

FIM DE SAFRA

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Tarde estival. A usina trepidava,
beneficiando os últimos capulhos
de algodão. O sol, duma fresta, espiava
as tulhas esgotadas. Pedregulhos,

pedras, cipós, pequenos paus, estavam
aos montes no quintal. Nos sarabulhos,
aqui e ali, a besta procurava
o capim encravado nos pedrulhos

para comer!... Um negro despejou
o derradeiro saco de algodão;
e suado, pachorrento, retirou

do carro uma garrafa de caninha
e bebeu! Um violento estremeção
sacode-o. Cospe. Alisa a carapinha...

domingo, 27 de junho de 2021

Êxtase


ÊXTASE

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Quero fechar os olhos
mansamente...
e abandonar os nervos
de repente,
em deliciosa inércia!

Quero sentir o nada
em meu ser
longe de pensamentos...
e sofrer
momentâneo vazio!

Depois... julgar sentir
a euforia
de meu deslumbramento!
Eu queria...
fugir - ah! se eu pudesse
refugiar-me
no próprio esquecimento.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Aipobureu


AIPOBUREU

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Era da tribo Bororó. Feliz
entre os seus, na selvagem liberdade
que desfrutava, Aipobureu bendiz
seguir os santos padres à cidade,

um dia, onde aprendeu a ler. E quis
ir a Paris, a Roma! Lá, debalde
tenta esquecer a Taba. Era infeliz.
O Rio das Mortes... Cuyabá! Saudade.

Retrospecção


RETROSPECÇÃO

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

A brisa desta noite sussurrou-me
qualquer segredo antigo, que estava
- esquecido
no fundo do meu coração!
Com seu aroma, veio-me à lembrança,
também,
um perfume meu conhecido,
indefinível, estranhamente
remoto, não sei mais de quem...

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Lavadeiras


LAVADEIRAS

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Entre barrancos altos, corre o rio.
E numa enseada bate o sol em cheio,
onde refulgem résteas no erradio
das águas lamacentas. E no meio

da margem uma tábua. O mulherio
trabalha; bate a roupa e, num boleio
de corpo, agacha-se no correntio
para lavar depressa, num receio

de que talvez o tempo mude... Agora,
estendem no varal as peças limpas,
pingando, para enfim, em chegada a hora,

recolherem enxutas, e dobradas
formarem as enormes trouxas claras,
que levam à cabeça, equilibradas...

Pária do amor

PÁRIA DO AMOR JOTA NIL (Tácito Silveira da Mota) De olhar parado e quase agonizante, o pobre moço andeja embriagado pelas ruas do Centro des...