sábado, 31 de julho de 2021

Despedida

DESPEDIDA

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Avizinha-se a hora da partida...
Penso nos dias bons que se passavam
adoráveis, na alegria incontida,
espontânea, nas horas que entoavam

louvores à amizade verdadeira.
Penso, também, nos dias ensombrados
de sofrimentos vários, na canseira
dos dias de trabalho, nos lembrados

e inesquecíveis dias entretidos,
passados a jogar familiarmente
prélios interessantes, divertidos...

Penso tanto, quisera não pensar...
Como é cruel a vida! Certamente
alegre em ir, mas triste em vos deixar...

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Fim de Safra

FIM DE SAFRA

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Tarde estival. A usina trepidava,
beneficiando os últimos capulhos
de algodão. O sol, duma fresta, espiava
as tulhas esgotadas. Pedregulhos,

pedras, cipós, pequenos paus, estavam
aos montes no quintal. Nos sarabulhos,
aqui e ali, a besta procurava
o capim encravado nos pedrulhos

para comer!... Um negro despejou
o derradeiro saco de algodão;
e suado, pachorrento, retirou

do carro uma garrafa de caninha
e bebeu! Um violento estremeção
sacode-o. Cospe. Alisa a carapinha...

domingo, 27 de junho de 2021

Êxtase


ÊXTASE

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Quero fechar os olhos
mansamente...
e abandonar os nervos
de repente,
em deliciosa inércia!

Quero sentir o nada
em meu ser
longe de pensamentos...
e sofrer
momentâneo vazio!

Depois... julgar sentir
a euforia
de meu deslumbramento!
Eu queria...
fugir - ah! se eu pudesse
refugiar-me
no próprio esquecimento.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Aipobureu


AIPOBUREU

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Era da tribo Bororó. Feliz
entre os seus, na selvagem liberdade
que desfrutava, Aipobureu bendiz
seguir os santos padres à cidade,

um dia, onde aprendeu a ler. E quis
ir a Paris, a Roma! Lá, debalde
tenta esquecer a Taba. Era infeliz.
O Rio das Mortes... Cuyabá! Saudade.

Retrospecção


RETROSPECÇÃO

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

A brisa desta noite sussurrou-me
qualquer segredo antigo, que estava
- esquecido
no fundo do meu coração!
Com seu aroma, veio-me à lembrança,
também,
um perfume meu conhecido,
indefinível, estranhamente
remoto, não sei mais de quem...

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Lavadeiras


LAVADEIRAS

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Entre barrancos altos, corre o rio.
E numa enseada bate o sol em cheio,
onde refulgem résteas no erradio
das águas lamacentas. E no meio

da margem uma tábua. O mulherio
trabalha; bate a roupa e, num boleio
de corpo, agacha-se no correntio
para lavar depressa, num receio

de que talvez o tempo mude... Agora,
estendem no varal as peças limpas,
pingando, para enfim, em chegada a hora,

recolherem enxutas, e dobradas
formarem as enormes trouxas claras,
que levam à cabeça, equilibradas...

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Depois da seca


DEPOIS DA SECA

JOTA NIL
(Tácito Silveira da Mota)

Um azul desbotado se descerra
sobre a paisagem quieta, de mormaço
amodorrante. O sol bafeja a terra
com raios que parecem chispas de aço!
Uma árvore despida de folhagem,
numa interrogação ao céu, levanta
os galhos nus! Nem uma leve aragem
no silêncio terrível que se adianta
na estatez* sonolenta da atmosfera
esbraseante. Porém, por um milagre
talvez, variou o tempo e se fizera
negro o céu. E ventou. Uma trovoada
forte anunciou a chuva que caiu
em beijos sobre a terra requeimada!

Despedida

DESPEDIDA JOTA NIL (Tácito Silveira da Mota) Avizinha-se a hora da partida... Penso nos dias bons que se passavam adoráveis, na alegria inco...